29.6.17

#26

Dia 3. Dia 3 terei finalmente que resolver o que tenho aqui dentro, exteriorizar a raiva e a frustração - não encontro mais nenhum sentimento, que espelhe o que sinto de momento - e quiçá, seguir em frente. Sei que seguir em frente só vai ter que depender de mim, sei que só depende de mim e não de qualquer cápsula e comprimido matinais.
Esperei 30 dias até ao momento de virar a página, escrevo isto 4 dias antes do "Dia D", por saber que no dia não terei forças, nem coragem, nem vontade de escrever nada. Sei que me vão faltar as palavras quando pegar no telemóvel, sei que me vou encher de força e que ao primeiro soluçar me vou desfazer, como uma nuvem se faz num dia de outono.
Sinto que mereço seguir em frente, apanhar uma bebedeira se for preciso, sinto que preciso de conhecer pessoas novas e virar a página. Não preciso de ficar com ninguém, mas sei que me vai fazer bem abrir as portas do meu coração e dar-me a conhecer e deixar de me consumir em pensamentos e numa vontade que nunca mais vai existir.
Precisarei de voltar à Invicta sem a vontade de querer estar com certa pessoa, sem que ela viva na minha cabeça 24/7 e de forma a que possa não suspirar por ver a sua foto. Lembro-me de no primeiro dia 3, ter dito que "há pessoas que não foram feitas para ficarem juntas..." e de seguida, ter dado um abraço apertado à pessoa de quem ainda gosto, enquanto esta se desfazia em lágrimas. Recordo-me também de ter dito que "quando saísse por aquela porta, nunca mais voltaria ali" e de ter descido a Avenida de República a chorar.
Se mereço? Talvez.
Se ainda preciso? Quem sabe?
Mas e quando a outra parte virar a página? E se a outra parte já tiver virado a página? "gostar só não chega", disse eu a 3 de Junho. Mas a verdade é que se a dita pessoa me dissesse agora para voltarmos, eu provavelmente iria hesitar, porque sei que já não vai ser a mesma coisa, porque sei que a cada dia - e por mais que goste a 200% - o sentimento se dissipa e por ter presente o que passei no fatídico dia 3. Faz agora um ano que deixei de acreditar que seria possível gostar de alguém, mas por alguma razão, Fevereiro, novamente Fevereiro, fez-me mudar o que achava sentir.
Eis que chega o momento de embalar a trouxa e zarpar, como diria Zeca. Sinto que ainda tenho tanto por dizer, tanto por escrever e que mesmo assim me faltam as palavras exactas para descrever como me sinto. Os dias são altos e baixos, há dias em que me esqueço de tomar a medicação, há outros em que não a falho, mas o que seria de mim se não fosse mesmo assim?
A noite está a começar a cair e eu com este nó na cabeça, o tempo a escassear e um aperto gigante no peito.
Sei que depois de segunda-feira, outra página se irá escrever, com maior ou menor sacrifício. Até lá, respiro fundo e assisto ao mover das nuvens.