22.6.15



Cartas de Beça Múrias na guerra colonial (Angola, 1962-1963)

Sinto que se temos dúvidas quanto à nossa própria atitude no momento em que soar a hora de entrar em combate, não é [...] por quaisquer posições ideológicas, ou pelo conhecimento de que as Nações Unidas há meses que andam a procurar convencer os salazaristas de que todos os povos têm o direito à sua independência e de que a sua impreparação para gerir os seus próprios destinos não pode servir de desculpa para continuar a explorá-los. [...] Viemos render uma companhia de Infantaria, que está ainda a meio da comissão, mas que vai ser transferida para uma zona não operacional em virtude de toda a sua tropa se encontrar exausta.
Sofreram muitas baixas – umas em combate, outras por doença, e outras ainda por desastres de viação. [...] Recolheram-se documentos bastante curiosos, porquanto nos deram uma noção bastante mais clara da organização guerrilheira. [...] Enganava-se quem considerava a guerrilha um movimento desorganizado. [...]
Parece que ninguém admite que se consegue pôr fim ao terrorismo por meios militares. [...] O Salazar nunca mais morre. É mais uma pesada carga na consciência deste homem, esta guerra que a nada conduz. [...] Saindo daqui, a nossa luta será criar um país sem injustiças e crimes. [...] Ainda bem que esta carta vai por mão própria. Assim ao menos tenho a certeza de que chegará às tuas mãos. [...] Revolta-me muito não poder falar e saber se tudo vai bem.