Cartas de Beça Múrias na guerra colonial (Angola,
1962-1963)
Sinto que se temos dúvidas quanto à nossa própria
atitude no momento em que soar a hora de entrar em combate, não é [...] por
quaisquer posições ideológicas, ou pelo conhecimento de que as Nações Unidas há
meses que andam a procurar convencer os salazaristas de que todos os povos têm
o direito à sua independência e de que a sua impreparação para gerir os seus
próprios destinos não pode servir de desculpa para continuar a explorá-los.
[...] Viemos render uma companhia de Infantaria, que está ainda a meio da
comissão, mas que vai ser transferida para uma zona não operacional em virtude
de toda a sua tropa se encontrar exausta.
Sofreram muitas baixas – umas em combate, outras por
doença, e outras ainda por desastres de viação. [...] Recolheram-se documentos
bastante curiosos, porquanto nos deram uma noção bastante mais clara da
organização guerrilheira. [...] Enganava-se quem considerava a guerrilha um movimento
desorganizado. [...]
Parece que ninguém admite que se consegue pôr fim ao
terrorismo por meios militares. [...] O Salazar nunca mais morre. É mais uma
pesada carga na consciência deste homem, esta guerra que a nada conduz. [...]
Saindo daqui, a nossa luta será criar um país sem injustiças e crimes. [...] Ainda
bem que esta carta vai por mão própria. Assim ao menos tenho a certeza de que
chegará às tuas mãos. [...] Revolta-me muito não poder falar e saber se tudo
vai bem.